• Fabio Tavares

Dias 3 ou 4. Ou seria 3 e 4? Parei de contar



Há alguns dias eu tinha entrado do Caminho, agora o Caminho entrou em mim.


Depois de passar por uma Via Crucis comecei a sentir mais essa presença religiosa do Caminho. Passei o diz focado em fazer algumas orações, orientado, mesmo que de longe, por um amigo muito religioso. Fazendo as orações, lembrei muito da minha mãe, que sempre colocou Maria pra ir na minha frente, abrindo os caminhos. Nunca fui uma pessoa muito religiosa, mas nessas andanças comecei a resgatar isso, fazendo muitas orações. Também lembrei bastante do meu grupo da Escola de Negócios do IESE, pedi muito pelo grupo; lembrei da minha família e pedi bastante para todos, para os amigos e familiares também. Essa passagem foi bem interessante.


Na parte física, apesar da altimetria, acho que evoluí bem. Saindo de Águas é um estradão muito gostoso e bonito. Bom pra pedalar. Vi vários Bikers treinando e passeando, passando pelos peregrinos e conversando. Alguns querendo saber sobre o Caminho, outros que tinham vontade de fazer e outros que já fizeram. Já havia passado 7km e eu já estava me preparando para o Pico do Gavião.


Faltando uns 7km pra Águas da Prata, já era noite, então por segurança diminuí a velocidade e mesmo assim cheguei dentro do previsto. Descansei bastante e fiz um jantar reforçado pra me preparar para a subida do dia seguinte. Apostei bastante no carboidrato pra investir na minha recuperação.


Saindo de Águas da Prata para Andradas eu teria um trecho só, de 31km. A mochila estava um pouco mais pesada, pois não teria ponto de apoio. Então, carreguei toda a alimentação, bastante água e Coca Zero, que é de lei.


Subi o Pico do Gavião num ritmo mais confortável. Tudo dentro do previsto, inclusive as bolhas no pé, que tive que furar para fazer curativo. Também sinto uma leve dor no lado esquerdo , atrás do joelho mas, por enquanto, nada preocupante. Já fiz gelo e comprei Gelol pra ajudar.





Cheguei cedo em Andradas pouco depois das 15h, depois de encontrar vários grupos que também estavam fazendo o Caminho, pessoal de Brasília e do Paraná.


Fiquei no hotel Vila Pastre. A Silmara estava atendendo os peregrinos no hotel. Acomodação simples, mas o atendimento da Silmara é muito bom. Ela é muito prestativa para pedir comida, resolver problemas, etc. Também havia outros peregrinos, com quem bati um papo. Como eu estava bem cansado, fiquei descansando no hotel, mas cada um na sua missão. Havia um grupo de peregrinos que tinha a meta de andar até onde aguentassem, outro rapaz de São Paulo mais programado, mas com joelho ruim e outro de Barretos tentando chegar em Crisólia.


ANDRADAS – OURO FINO


Saindo de Andradas, saí bem cedo, às 6h da manhã, rumo à Ouro Fino, 42km. Peguei uma rodovia logo na saída. O trecho era pequeno, mas incomoda porque é sem acostamento. Estava caminhando com um colega, conversando, e realmente é ruim. Depois peguei um estradão bacana, mas muito movimentado, com muito caminhão e carros pequenos. Como estava seco também, levantava muita poeira. Alguns respeitavam, diminuindo a velocidade, mas outros passavam a milhão e levantavam muita poeira.


Fiz 6km em 1h14, dentro do planejado. Procurei dar alguns trotes para aquecer, porque estava muito frio às 6h da manhã. Dos peregrinos que encontrei eu era o único com a programação vindo mais de longe e fazendo mais quilometragem por dia.

Desde que passei em São Roque da Fartura, me falaram que tinham duas irmãs na minha frente, indo num ritmo mais devagar, então logo espero encontra-las. Também passei por um grupo de uns 15 peregrinos, o que é muito legal trocar experiência com mais pessoas que também estão fazendo o Caminho da Fé. Enfim, passei a conviver com pessoas que estão com o mesmo objetivo que eu.


Peguei a Serra dos Lima, subi e desci tranquilo, até começar um trecho bonito e gostoso, quase sem nenhum carro. O que acho interessante, pra quem quiser abrir um pouco mais, pode não ficar em Andradas, podendo passar pela Serra dos Limas e dormir na Talina, um refúgio bem simples, mas interessante pra estratégia. Fica depois da Serra e é o posto onde a BR135 usa pra fazer a checagem de saúde dos atletas.

Como tinha saído cedo e, com 4h de caminhada, acabei comendo meu almoço que era o atum. Com 6h bateu novamente a fome, quando vi um ponto de apoio de peregrinos. Entrei e perguntei se tinha alguma coisa pra comer. O rapaz que me atendeu disse que tinha um resto de arroz e ele ainda me fez dois ovos para complementar.




Com 8h de caminhada, mais ou menos uns 36km, eu já estava próximo de Crisólia, onde só abasteci de água e já continuei seguindo para Ouro Fino. Até pensei em ficar conversando com o Menino da Porteira, mas o Sol era de rachar, virado no Jiraya. Várias vezes diminuía a velocidade pra não sobrecarregar o carburador. Quando possível, jogava água na cabeça, mas sempre economizando, porque nesse trecho não encontrei muitos pontos de água. Estradão seco e zero de sombra. Passei rapidamente por Crisólia, que não tem quase nada. Parece um vilarejo de uma cidade bem pequena.



O que achei bacana aqui é a questão da igualdade. Não tem nenhum tipo diferenciação, seja por sexo, cor, nem nada. As pessoas não têm nem nome, ninguém pergunta seu nome, o que gosta de fazer, se é casado ou não. Aqui você é um peregrino. As pessoas te enxergam apenas como peregrino. Você é mais um e isso eu acho bacana demais. No máximo, as pessoas têm curiosidade de saber de onde você vem. Elas não querem saber onde você mora, elas querem saber se é da Bahia, de São Paulo, de Santa Catarina, saber só de onde é o peregrino.


Encerrei o dia sendo recepcionado pela família, que veio me acompanhar e por amigos que me recepcionaram em Ouro Fino, com um ótimo jantar.




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Iniciando na cidade de Tambaú atá Aparecida, 420km em 10 dias.

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